sábado, 15 de setembro de 2012





"[...] na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo... Se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenho para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes."

(Paulo Freire)
 
 
 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.


Alberto Caeiro, em "O Guardador
de Rebanhos".
 
 
Entre dois continentes vivo intensamente. A cabeça não para. Quando estou em África, olho a minha casa em terras brasileiras com olhos de dúvida, de questionamentos, de inquietude e faço vários balanços, amplia-se o universo a minha frente, cresço, me surpreendo. Temos o mundo em minhass mãos! Quantos caminhos trilhados, quantas histórias construidas, algumas inclusive interrompidas, deixada de lado, transformadas em novos focos, outras clamando por continuidade, inovação, novos contornos, outras belezas.
Ao chegar no Brasil, o movimento é outro, é inverso, olho a África, a surpresa daqui é outra, quanto é vasta esta aldeia, quanto precisa ser visto e expandido. Já são tem Programas realizados: Qualificação Profissional, Formação Continuada de Professores Alfabetizadores e Protagonismo de Jovens. Quero mais, muito mais!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Na roda do mundo...

“Tudo que a gente faz na vida, ecoa na humanidade e na eternidade”.




Na semana passada tive o privilégio de participar de um ritual de iniciação de uma menina do grupo social macua, em Moçambique. Com vestimentas típicas, muita dança e batuques, as mais velhas comunicaram, para além das palavras, o universo e os contornos da VIDA adulta feminina.

Uma oportunidade sem igual para viver com intensidade o significado de pertença a um grupo, a uma sociedade, a uma cultura. Um convite à reflexão sobre o feminino, sua complexidade, seu jeito de agir e reagir, sua sensibilidade e alegria, sua forma de celebrar a vida e cultivar a magia de ser mulher.

Os diferentes momentos marcados por vários símbolos (capulanas, missangas, pano branco, moedas, balas e comidas) deram legitimidade as mudanças já sentidas no corpo, que transformam a menina em mulher. Como convidada pensei o tempo todo sobre o valor de olharmos as nossas identidades e fazermos escolhas, remetendo-nos para uma condição que tem como ponto inicial a diferenciação sexual de natureza biológica, que nos configura como mulheres e homens.

Lembrei dos ritos presentes na minha trajetória de vida, comparei com a festa de 15 anos que no nosso contexto social também marca a passagem da infância para a idade adulta, quando rompe-se com a espontaneidade da meninice e brinda-se com 15 amigas a chegada na vida de “gente grande”. É o alerta para um novo tempo, uma nova dinâmica que tem um tom ou outro, que pode perpetuar ou transformar os modelos, a partir dos encontros e desencontros, das escolhas que são feitas ou não.

A coletividade ganha força nesta hora, com outras mulheres podemos manter ou provocar a mudança do que está estruturado na sociedade por um grande aparato material e simbólico que nos "dizem" quem devemos ser, o que fazer, o que é lícito ou não, o que pensar, falar e experienciar.

Acompanhar mais de 100 mulheres juntas, em um imaginário coletivo, vivendo a sua sensualidade e descoberta autorizada da sexualidade, me convocou a pensar no significado de ser mulher no mundo de hoje e na importância dos ritos que marcam o movimento do mundo.

Vi a beleza do sagrado, secreto e de partilha, o valor da cumplicidade e a importância do coletivo. Constatei que vale a pena viver plenamente a VIDA e preservar cada vez mais o que nos pertence, nos faz mulher, nos dá encanto e muita magia. Roda mundo, roda vida, mas preserve o que nos caracteriza, nos dá identidade e a esperança de ver para sempre o encanto das diferenças entre as mulheres e os homens!



sexta-feira, 6 de julho de 2012


"...
Chuva e sol
Poeira e carvão
Longe de casa
Sigo o roteiro
Mais uma estação
E a saudade no coração...".


 O mundo gira em uma velocidade surpreendente e depois de 30 dias em Moçambique - Tete, lá vou eu para outro canto deste país, de volta à Nacala.
A Mina de Carvão de Moatize é algo que chama atenção: equipamentos pesados, ambiente vasto e pessoas de diferentes lugares do mundo, juntas em uma nova nação. Um movimento de crescimento e desenvolvimento local que exige cuidado e atenção. Ao mesmo tempo que vejo que enormes desafios de vida (saúde, educação, alimentação, moradia, transporte e outros),estão presentes no dia a dia dos nacionais, vejo também as novas tecnologias acessíveis garantindo interlocução e interação com o mundo pós moderno e sua dinâmica.


EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO... Caminho que liberta e impulsiona a ir mais além. O Programa que assessoramos neste contexto começou a funcionar esta semana e já é possível identificar seu impacto. O prognóstico é marcado pela esperança!
Vamos em frente confiantes que temos um longo caminho a percorrer!

domingo, 1 de julho de 2012

Diálogos e convites a reflexão!


Tenho dito muito ultimamente que o diálogo é a melhor ferramenta do mundo atual! Hoje, em conversa com uma tia querida, lá do Recife, escutei algo tão rico e valioso que compartilho para ser objeto de reflexão e escolha de muitos! Uma linda semana para todos! Obrigada tia Leda pelo seu convite e provocação.

"Se só fizermos o que ja sabemos e o que aos olhos de todos é possivel, nunca avançamos. Temos que fazer o que parece impossível e imprevisível! ".



15:41
onde andas a esta hora/ do outro lado do Atlantico????
 15:44
Estou aqui em Moçambique, no meio do mato, em uma Mineradora, acreditando que vale a pena, apesar dos pesares, apoiar pessoas a construir e realizar sonhos tendo a educação como ferramenta!
 15:44
Adoro esta sua garra. VALE SIM!!!
15:45
Agora estou tb com um Programa de Protagonismo Juvenil. É bacana acompanhar estes meninos e meninas cultivando utopias e fazendo a diferença!
Sangue Regis e Dourado!
Lembro muito do meu pai e das suas aventuras na luta pela vida bem vivida para muitos!
Do vô João Regis e suas andanças!
Do tio Nelo, tio Bima e da tia Leda e suas lutas que aos olhos de muitos pareciam impossíveis!
15:48
se so fizermos o que ja sabemos e o que aos olhos de todos, é possivel, nunca avançamos. Temos que fazer o que parece impossível e imprevisível! João Regis fez muito isto
15:49
Justo!
Uma maravilha viver todas estas aventuras tendo como inspiração raizes e histórias familiares.
 15:50
viva pois e intensamente. Um grande beijo, Lila. Tchau
 15:51
Outro tia querida! espero reencontrá-la em breve!

sábado, 30 de junho de 2012

Dá-me a sua mão!

"...está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio".
 
 
As crianças como sempre me fascinam, exercem sobre mim um domínio traduzido na beleza da poesia, poesia que brota dos olhos, que comunica sem palavras, que me convida a encontrar caminhos e a trilhar por paisagens que cultivam esperança para as dores e desafios do mundo!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
No arquepélago de Bazaruto, em Moçambique conheci crianças lindas. Fui encantada por 03 delas, irmãs que ficavam com sua mãe na porta da casa que nos hospedamos. O olhar para além do horizonte chamou a minha atenção, cheguei junto e dialogamos em silêncio, sem palavras escutei o seu pedido...
Demos as mãos!
De volta ao ponto de partida, encontrei muitos outros pequenos com diversos pedidos expressos, principalmente no desejo imediato de saciar a dores da fome. O motorista parou na estrada para comprar abacaxis, já era noite, tarde, a escuridão me alertava para os perigos daquela aventura, principalmente naquele dia em que toda gente celebrava 50 anos da FRELIMO, partido que lutou pela independência de Moçambique. Em meio a noite escura homens, mulheres, crianças, adolescentes, jovens e idosos andavam de um lado para o outro. Eu estava tensa, quando de repente algumas crianças chegam na minha janela e me pedem dinheiro, respondi de imediato, que não dou dinheiro à crianças e uma delas me fitou nos olhos e disse: "Quero uma caneta para aprender".
Dá-me a sua mão! São elas me me convocam diariamente a ir em frente com muita ESPERANÇA!
 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

De volta aos diálogos e partilhas.

As cenas do cotidiano me fascinam, compartilhar os meus olhares com quem quero bem, me motiva a ir sempre mais além, fazendo novas descobertas, traçando caminhos e outras rotas.
Contar histórias vividas ou observadas me ajuda a elaborar experiências, fazer escolhas, tomar decisões de que caminhos seguir.
É hora pois de recolocar o blog na ativa!
Escrever sobre o observado e interpretado faz parte do meu processo de elaboração do mundo. A escrita é para mim milagrosa, através dela vou descobrindo coisas novas, muito do que vejo ganha foco, vai clareando a minha frente... e de repente, a ideia amadurece.
Outro dia, fui a um restaurante na beira do rio, minhas parceiras da ESSE tinham ido até lá e visto um crocodilo. Eu não poderia ficar de fora. Vi muito mais do que poderia imaginar... Vi histórias do cotidiano que dialogaram com contextos convergentes com a minha própria história de vida.
Me deparei com cenas da vida cotidiana do povo africano que me convocaram a pensar - O que nos comunicam este povo quando se organizam em grupos? Por que de um lado ficam as mulheres e as crianças e do outro os homens?
 De um lado as mulheres estavam trabalhando, lavando roupas, banhando crianças, limpando o corpo. Do outro, os homens em diversão. Diferenças, paradoxos, modelos sociais desde que o mundo é mundo e em diferentes partes. Cada canto, os seus encantos! Cada escolha, suas repercussões... Aqui em Moçambique são as mulheres que carregam o peso, são elas que usam a força braçal. São elas que fazem o dia a dia acontecer!

E assim fortaleço a ideia de que ver exige ir além do olhar, fica a expansão da lucidez que não nos livra dos dramas, mas nos ajuda a aprofundar a ideia da VIDA e os caminhos escolhidos!
Gosto muito das escolhas que fiz até aqui!