sábado, 12 de dezembro de 2009

Carta de retorno

Querida família, amigos e colegas de trabalho,


Estou voltando... estou chegando!!!!

Nestes 2 meses foram muitas as aprendizagens. Tenho que elaborá-las por um tempo, no mundo que tenho dentro de mim, para ter a capacidade de comunicá-las, compartilhá-las. Vivi momento valiosos de contato com o povo angolano, sua cultura, visão de mundo, de sociedade, de luta, trabalho, família, relações humanas. Eles são fantásticos! Fiz alguns registros fotográficos e em filmes e espero mostrá-los em breve. Estou muito feliz com a oportunidade vivida. Não sou mais a mesma, estou transformada.
Durante a minha estadia em Angola, tive também a oportunidade de dialogar à distância com a minha realidade, com o meu país, com o povo brasileiro, com amigos, colegas e familiares que nem sempre estavam muito perto e com outros que fazem parte do meu dia a dia. Foram momentos de muito valor, momentos para escutar diferentes olhares e pontos de vista, compartilhar emoções, refletir diferentes contextos, sensibilizar-se, expressar o nosso compromisso com o outro, ser solidário, ser amigo, ser irmão. Durante este período recebi lindas mensagens, pessoas que me enviaram muitos materiais sobre a África, sobre o ser humano, sobre os mistérios da VIDA.
Hoje acordei com uma linda e provocante mensagem (Dr. Rita Levi - 100 anos, cientista, Prêmio Nobel), enviado pelo meu tio Nely, homem surpreendente, um exemplo de vida pela sua força, coragem, resiliência e acima de tudo pela sua crença na vida pelo trabalho e no trabalho, na vida na família e pela família.
 A distância me permitiu olhar com outros olhos tudo que chega até a mim, a escutar de outra maneira tudo que ouço e a sentir de outra forma as melodias, as vozes, o silêncio dos que fazem parte da minha vida e dos que vejo passar.

Obrigada à todos pelo carinho. Obrigada a Ruy pela oportunidade.


Um forte abraço amigo,
Marilia

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Em tempo de muita saudade, a alegria de uma criança...


Hoje acordamos com Stefania, filha de Catarina, em nossa casa. Em momentos de muita saudade da família, a sua presença, trouxe brilho, alegria que irradiou por todos os espaços. Ela está completando 5 anos e nós celebramos a VIDA, escutando o seu olhar, a expressão do corpo, o ritmo surpreendente, a dança, os jogos e as brincadeiras. Gravamos tudo no coração e em um lindo filme, que queremos compartilhar com muitos no Brasil, para comunicar as nossas impressões sobre esta gente encantadora, nossos irmãos de alma, história e coração.



quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Alegria de lidar com o insólito, o inesperado, a surpresa!!!



“Nós vos pedimos com insistência:

não digam nunca
- Isso é natural:
Sob o familiar,
descubram o insólito.
sob o cotidiano, desvelem
o inexplicável.
Que tudo que é considerado habitual
provoque inquietação.
Na regra, descubram o abuso,
e sempre que o abuso for encontrado,
encontrem o remédio".


Bertold Brecht

Na hora da saída, a pergunta que mais tenho me feito é: por quê vim? Em busca de quê? Com que objetivos e intenções?
Não tenho respostas para todas as perguntas, mas posso afirmar que gosto de lidar com o novo, o inusitado, o inesperado, a supresa! Estou muito feliz com a experiência!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Finalizando mais um ciclo...

"Tudo o que chega,

chega sempre por alguma razão".

(Fernando Pessoa)



Já é hora de encerrar mais um ciclo, concluir uma nova história, terminar um outro capítulo...é sempre bom celebrar resultados e fechamentos... é hora pois, de fazer um balanço e identificar o saldo. Esta é a última semana por aqui. Uma experiência marcante não só profissional, mas também pessoal, que me permitiu dialogar com valores e crenças que defendo e acredito e outros que me fazem pensar, provocam questionamentos dúvidas, surpresas. Fico tentando resgatar alguns registros que ficaram na memória... desde algumas ideias escutadas "tudo aqui é normal", ou "não existe homem honesto, mas papel honesto", até atos generosos, cuidadosos e amigos de quem mal conheciamos. Fecho este ciclo feliz, com uma sensação de dever cumprido e com um coração que não diz ADEUS, mas um ATÉ BREVE!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Tecer... construir e desconstruir... puxar os fios!

Desconstruir alguma coisa significa, literalmente, 'demonstrar' — por um lado, puxar todos os fios para identificar sua multiplicidade de significados e, por outro, desfazer os 'construtos' da ideologia ou da convenção que lhe tenha imposto significado. O processo de desconstrução põe à mostra, inevitável e intencionalmente, as incoerências e as contradições. Isso leva à conclusão de que não existe significado único no texto e que ele também não pode afirmar que expressa uma VERDADE absoluta.
 (ROHMANN)

Sim... são muitas as construções e desconstruções... dois meses que as vezes parecem uma eternidade e em outras, tão breve, que não me permitem compreender tudo que vejo por aqui. Tentei escutar diferentes atores, vozes de muitos lugares, histórias de quem viveu e outras de quem as escutou, alguns que estavam presentes, mas não tem lembranças... outros que construiram uma história. Com todos estes elementos, vou tecendo uma imagem... uso fios de variadas cores, eles ganham forma e, meio que por encanto tem até vida... em alguns momentos, me assusto... puxo os fios, destecer as vezes também é preciso... eu outros, vejo contornos que revelam beleza...brinco... brindo... e as palavras vem e povoam a minha mente, dizem que existe sim uma realidade, mas aquela que a gente ver... abro os olhos e o hoje me comunica uma verdade, que desenhei com meu olhar, minha emoção, minha forma de ver a vida, as pessoas, os fenômenos, as relações.
 Da política à cultura nacional... tudo me chama atenção... acredito e tenho esperança em novos tempos, em um tempo novo, tecido... construído e também, porquê não, desconstruído... as vezes é preciso puxar os fios!




segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Entrevistando Catarina, minha professora de cultura angolana!

Hoje entrevistei Catarina. Disse a ela que gostaria de ouvir suas impressões sobre o seu país e levar comigo seus olhares e ideias para compartilhar com amigos, colegas de trabalho e familiares. Quantos temores!!!! Foram muitas as vezes que adiamos este momento. Insisti... é isso que me fascina por onde eu ando, conhecer um pouco mais dos lugares, através das pessoas, seus sonhos, medos, histórias, experiências de vidas, perspectiva para o futuro.


Ao escutar Catarina pensei muito em muitos jovens que conheço, aqueles mais próximos, outros mais distantes, veio a minha memória meus filhos, sobrinhos, primos, lembrei da época em que tinha a idade deles, resgatei os conflitos e verdades construídos, os sonhos e os medos, a expectativa do amanhã.
A juventude é mesmo uma linda fase da vida humana. Com muita saúde e vigor, o jovem vê a sua frente, um amplo cenário da vida. E nele, com força, coragem e determinação, se atira à vida, em busca da realização de seus ideais. Tudo é alegria, é encantamento, faz pulsar forte o coração, é ânsia de viver porque, creio eu, já sabe, que mais adiante, as responsabilidades são muitas e não mais o deixarão viver livremente como uma ave que voa despreocupadamente o azul de um céu sem limites!
Vejo que alguns deixam de viver muito cedo esta fase, outros a esticam até quando podem. São muitos os segredos e mistérios que carregam consigo. É preciso saber escutá-los!!!!







O que quer Catarina dizer ao mundo, ao mudar tanto de visual?

domingo, 6 de dezembro de 2009

O permanente exercício do olhar relativo!

Há quase 2 meses, quando chegamos aqui, a primeira impressão foi a de um país em reconstrução, marcado pela imagem de um grande canteiro de obras...prédios, avenidas, linhas de transmissão, canalizações, estradas, aeroporto novo e um outro em construção. Chamou a atenção!
Agora, já na hora de retornar, temos escutado muito sobre a crise econômica, empresas que não sustentam a situação, falta de pagamentos, demissões, Governo em crise, uma possível mudança ministerial, novo cenário, expectativas, apreensão. O que fazer? Para mim, investir em educação!
Ontem fomos as compras com o motorista de uma amiga. É claro que aproveitei a situação para escutar um pouco mais sobre a realidade do país e o olhar de quem vive nele. Fiquei admirada e feliz... vi um jovem de 30 e poucos anos, com uma visão muito interessante da realidade social atual e da vida. Disse-me que espera do governo oportunidades. Não quer dinheiro dado (lembrei de imediato da bolsa família, do nosso país), quer vida digna. Falou em poucas palavras da guerra, disse que senti-la na pele foi uma realidade dura, pois desestruturou o que dá a sociedade eixo, a família. Mas que já passou, agora o momento é outro. Este tema deu a oportunidade para falarmos das relações homem e mulher que chama tanto a minha atenção pelo machismo. Disse-nos que depende de cada relação, que ele por exemplo lava pratos, varre casa... Disse-nos também que não gosta de futebol, sentimento este que não pode compartilhar com homens, pois é até vergonhoso, estes não entendem. Enfim... o exercício relativo na complexidade do mundo atual é essencial para entender cada um como um ser único, singular e deixar de generalizar, comportamento "burro" na atualidade. A mim me incomoda muito escutar: os angolanos são isso ou aquilo, os baianos são isso ou aquilo... Ah é hora de exercitar o olhar relativos!!!!
Em tempo: torço para que o anônimo que comentou esta semana, exercite o olhar relativo e saia do  mero julgamento perverso que não leva a nada e não é nem um pouco educativo, intenção deste blog.
Uma boa semana para todos, mesmo em um tempo tão difícil!!!