segunda-feira, 23 de julho de 2012

Na roda do mundo...

“Tudo que a gente faz na vida, ecoa na humanidade e na eternidade”.




Na semana passada tive o privilégio de participar de um ritual de iniciação de uma menina do grupo social macua, em Moçambique. Com vestimentas típicas, muita dança e batuques, as mais velhas comunicaram, para além das palavras, o universo e os contornos da VIDA adulta feminina.

Uma oportunidade sem igual para viver com intensidade o significado de pertença a um grupo, a uma sociedade, a uma cultura. Um convite à reflexão sobre o feminino, sua complexidade, seu jeito de agir e reagir, sua sensibilidade e alegria, sua forma de celebrar a vida e cultivar a magia de ser mulher.

Os diferentes momentos marcados por vários símbolos (capulanas, missangas, pano branco, moedas, balas e comidas) deram legitimidade as mudanças já sentidas no corpo, que transformam a menina em mulher. Como convidada pensei o tempo todo sobre o valor de olharmos as nossas identidades e fazermos escolhas, remetendo-nos para uma condição que tem como ponto inicial a diferenciação sexual de natureza biológica, que nos configura como mulheres e homens.

Lembrei dos ritos presentes na minha trajetória de vida, comparei com a festa de 15 anos que no nosso contexto social também marca a passagem da infância para a idade adulta, quando rompe-se com a espontaneidade da meninice e brinda-se com 15 amigas a chegada na vida de “gente grande”. É o alerta para um novo tempo, uma nova dinâmica que tem um tom ou outro, que pode perpetuar ou transformar os modelos, a partir dos encontros e desencontros, das escolhas que são feitas ou não.

A coletividade ganha força nesta hora, com outras mulheres podemos manter ou provocar a mudança do que está estruturado na sociedade por um grande aparato material e simbólico que nos "dizem" quem devemos ser, o que fazer, o que é lícito ou não, o que pensar, falar e experienciar.

Acompanhar mais de 100 mulheres juntas, em um imaginário coletivo, vivendo a sua sensualidade e descoberta autorizada da sexualidade, me convocou a pensar no significado de ser mulher no mundo de hoje e na importância dos ritos que marcam o movimento do mundo.

Vi a beleza do sagrado, secreto e de partilha, o valor da cumplicidade e a importância do coletivo. Constatei que vale a pena viver plenamente a VIDA e preservar cada vez mais o que nos pertence, nos faz mulher, nos dá encanto e muita magia. Roda mundo, roda vida, mas preserve o que nos caracteriza, nos dá identidade e a esperança de ver para sempre o encanto das diferenças entre as mulheres e os homens!



sexta-feira, 6 de julho de 2012


"...
Chuva e sol
Poeira e carvão
Longe de casa
Sigo o roteiro
Mais uma estação
E a saudade no coração...".


 O mundo gira em uma velocidade surpreendente e depois de 30 dias em Moçambique - Tete, lá vou eu para outro canto deste país, de volta à Nacala.
A Mina de Carvão de Moatize é algo que chama atenção: equipamentos pesados, ambiente vasto e pessoas de diferentes lugares do mundo, juntas em uma nova nação. Um movimento de crescimento e desenvolvimento local que exige cuidado e atenção. Ao mesmo tempo que vejo que enormes desafios de vida (saúde, educação, alimentação, moradia, transporte e outros),estão presentes no dia a dia dos nacionais, vejo também as novas tecnologias acessíveis garantindo interlocução e interação com o mundo pós moderno e sua dinâmica.


EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO... Caminho que liberta e impulsiona a ir mais além. O Programa que assessoramos neste contexto começou a funcionar esta semana e já é possível identificar seu impacto. O prognóstico é marcado pela esperança!
Vamos em frente confiantes que temos um longo caminho a percorrer!

domingo, 1 de julho de 2012

Diálogos e convites a reflexão!


Tenho dito muito ultimamente que o diálogo é a melhor ferramenta do mundo atual! Hoje, em conversa com uma tia querida, lá do Recife, escutei algo tão rico e valioso que compartilho para ser objeto de reflexão e escolha de muitos! Uma linda semana para todos! Obrigada tia Leda pelo seu convite e provocação.

"Se só fizermos o que ja sabemos e o que aos olhos de todos é possivel, nunca avançamos. Temos que fazer o que parece impossível e imprevisível! ".



15:41
onde andas a esta hora/ do outro lado do Atlantico????
 15:44
Estou aqui em Moçambique, no meio do mato, em uma Mineradora, acreditando que vale a pena, apesar dos pesares, apoiar pessoas a construir e realizar sonhos tendo a educação como ferramenta!
 15:44
Adoro esta sua garra. VALE SIM!!!
15:45
Agora estou tb com um Programa de Protagonismo Juvenil. É bacana acompanhar estes meninos e meninas cultivando utopias e fazendo a diferença!
Sangue Regis e Dourado!
Lembro muito do meu pai e das suas aventuras na luta pela vida bem vivida para muitos!
Do vô João Regis e suas andanças!
Do tio Nelo, tio Bima e da tia Leda e suas lutas que aos olhos de muitos pareciam impossíveis!
15:48
se so fizermos o que ja sabemos e o que aos olhos de todos, é possivel, nunca avançamos. Temos que fazer o que parece impossível e imprevisível! João Regis fez muito isto
15:49
Justo!
Uma maravilha viver todas estas aventuras tendo como inspiração raizes e histórias familiares.
 15:50
viva pois e intensamente. Um grande beijo, Lila. Tchau
 15:51
Outro tia querida! espero reencontrá-la em breve!

sábado, 30 de junho de 2012

Dá-me a sua mão!

"...está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio".
 
 
As crianças como sempre me fascinam, exercem sobre mim um domínio traduzido na beleza da poesia, poesia que brota dos olhos, que comunica sem palavras, que me convida a encontrar caminhos e a trilhar por paisagens que cultivam esperança para as dores e desafios do mundo!
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
No arquepélago de Bazaruto, em Moçambique conheci crianças lindas. Fui encantada por 03 delas, irmãs que ficavam com sua mãe na porta da casa que nos hospedamos. O olhar para além do horizonte chamou a minha atenção, cheguei junto e dialogamos em silêncio, sem palavras escutei o seu pedido...
Demos as mãos!
De volta ao ponto de partida, encontrei muitos outros pequenos com diversos pedidos expressos, principalmente no desejo imediato de saciar a dores da fome. O motorista parou na estrada para comprar abacaxis, já era noite, tarde, a escuridão me alertava para os perigos daquela aventura, principalmente naquele dia em que toda gente celebrava 50 anos da FRELIMO, partido que lutou pela independência de Moçambique. Em meio a noite escura homens, mulheres, crianças, adolescentes, jovens e idosos andavam de um lado para o outro. Eu estava tensa, quando de repente algumas crianças chegam na minha janela e me pedem dinheiro, respondi de imediato, que não dou dinheiro à crianças e uma delas me fitou nos olhos e disse: "Quero uma caneta para aprender".
Dá-me a sua mão! São elas me me convocam diariamente a ir em frente com muita ESPERANÇA!
 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

De volta aos diálogos e partilhas.

As cenas do cotidiano me fascinam, compartilhar os meus olhares com quem quero bem, me motiva a ir sempre mais além, fazendo novas descobertas, traçando caminhos e outras rotas.
Contar histórias vividas ou observadas me ajuda a elaborar experiências, fazer escolhas, tomar decisões de que caminhos seguir.
É hora pois de recolocar o blog na ativa!
Escrever sobre o observado e interpretado faz parte do meu processo de elaboração do mundo. A escrita é para mim milagrosa, através dela vou descobrindo coisas novas, muito do que vejo ganha foco, vai clareando a minha frente... e de repente, a ideia amadurece.
Outro dia, fui a um restaurante na beira do rio, minhas parceiras da ESSE tinham ido até lá e visto um crocodilo. Eu não poderia ficar de fora. Vi muito mais do que poderia imaginar... Vi histórias do cotidiano que dialogaram com contextos convergentes com a minha própria história de vida.
Me deparei com cenas da vida cotidiana do povo africano que me convocaram a pensar - O que nos comunicam este povo quando se organizam em grupos? Por que de um lado ficam as mulheres e as crianças e do outro os homens?
 De um lado as mulheres estavam trabalhando, lavando roupas, banhando crianças, limpando o corpo. Do outro, os homens em diversão. Diferenças, paradoxos, modelos sociais desde que o mundo é mundo e em diferentes partes. Cada canto, os seus encantos! Cada escolha, suas repercussões... Aqui em Moçambique são as mulheres que carregam o peso, são elas que usam a força braçal. São elas que fazem o dia a dia acontecer!

E assim fortaleço a ideia de que ver exige ir além do olhar, fica a expansão da lucidez que não nos livra dos dramas, mas nos ajuda a aprofundar a ideia da VIDA e os caminhos escolhidos!
Gosto muito das escolhas que fiz até aqui!

domingo, 23 de outubro de 2011

Em que mundo você está, mãe?

Esta pergunta está me provocando a todo instante... Minha filha a formulou quando compartilhei com ela algumas experiências que fazem parte do meu dia a dia em Angola e há muito não experimentava no Brasil. Que curioso! A sensação que tenho é que vivo entro dois mundos, oras mergulho em um cotidiano brasileiro que construi e escolhi ao longo da VIDA, com muita presença da família e atividades profissionais diversas,  e em outros momentos me envolvo totalmente com um Projeto e várias novas relações, vivendo um uma "família" inventada, que teve que ser construida. Neste contexto optei por brincar com a alquimia dos sabores, estou cozinhando, assumindo a liderança do fogão. Algo tão surpreendente e inusitado inclusive para mim!
E assim vou seguindo em frente, inspirada em Mia Couto que disse: "A vida, ela toda, é um extenso nascimento".


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Uma entrevista imperdível de Mia Couto para estudantes brasileiros

Por Marina Azaredo
dia 19 de agosto de 2011

E se você tivesse a oportunidade de entrevistar um escritor? Pois os alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio São Luís, em São Paulo, tiveram. E não foi um escritor qualquer. Há duas semanas, os adolescentes estiveram com o moçambicano Mia Couto no auditório da escola. Em quase duas horas de conversa, os meninos não se intimidaram: fizeram perguntas inteligentes e não deixaram espaço para silêncios constrangedores (a propósito, veja o que o escritor tem a dizer sobre o silêncio na oitava pergunta).
Eu estive lá para acompanhar a entrevista e, junto com os alunos, ri e me emocionei com as respostas de Mia. Ao final, ainda tive a chance de perguntar a ele sobre a diferença que a Educação fez em sua vida. Confira abaixo a entrevista e encante-se com as histórias de Mia Couto, um dos maiores escritores africanos da atualidade. (Fiz questão de deixar as respostas na íntegra. Ficaram longas, mas valem a leitura, garanto!)


1 – Você lutou pela independência de Moçambique durante a guerra civil. Como a sua vivência como militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) marcou o seu trabalho como escritor?
Marcou de várias maneiras. Foi um processo longo, de escolhas, de um certo risco em um dado momento. Foi algo que me ensinou a não aceitar e a não me conformar. É a grande lição que tiro, que também me ajuda hoje a estar longe desse movimento de libertação, que se conformou e se transformou naquilo que era o seu próprio contrário. Mas eu acredito que ser uma pessoa feliz e autônoma é uma conquista pessoal. Não se pode esperar que algum movimento social ou político faça isso por você. Isso é algo que resulta do nosso próprio empenho.
2 – Como é ser escritor em Moçambique?

Vou contar um pequeno episódio que pode ajudar a responder a essa questão. Um dia eu estava chegando em casa e já estava escuro, já eram umas seis da tarde. Havia um menino sentado no muro à minha espera. Quando cheguei, ele se apresentou, mas estava com uma mão atrás das costas. Eu senti medo e a primeira coisa que pensei é que aquele menino ia me assaltar. Pareceu quase cruel pensar que no mundo que vivemos hoje nós podemos ter medo de uma criança de dez anos, que era a idade daquele menino. Então ele mostrou o que estava escondendo. Era um livro, um livro meu. Ele mostrou o livro e disse: “Eu vim aqui devolver uma coisa que você deve ter perdido”. Então ele explicou a história. Disse que estava no átrio de uma escola, onde vendia amendoins, e de repente viu uma estudante entrando na escola com esse livro. Na capa do livro, havia uma foto minha e ele me reconheceu. Então ele pensou: “Essa moça roubou o livro daquele fulano”. Porque como eu apareço na televisão, as pessoas me conhecem. Então ele perguntou: Esse livro que você tem não é do Mia Couto?”. E ela respondeu: “Sim, é do Mia Couto”. Então ele pegou o livro da menina e fugiu.
Essa história é para dizer que, para uma parte dos moçambicanos, a relação com o livro é uma coisa nova. É a primeira geração que está lidando com a escrita, com o escritor, com o livro. Nós, escritores moçambicanos, sabemos que escrevemos para uma pequena porcentagem da população, que são os que sabem ler e escrever. O livro tem uma circulação muito restrita. Mas, mesmo assim, as tiragens dos meus livros em Moçambique giram em torno de 6 mil, 7 mil exemplares, o que é um número alto. Quando comparo com as tiragens que faço no Brasil, posso dizer que o Brasil não vai muito além. O Brasil não lê tanto quanto pensamos. Se contarmos a população inteira do Brasil e apenas aquela que lê e compra livros, veremos que a situação é proporcional à de Moçambique.
3 – O que os escritores fazem para promover o livro em Moçambique?

A Associação de Escritores de Moçambique faz encontros em escolas primárias e secundárias e em fábricas. E aí tentamos fazer alguma coisa. Mas os livros estão muito caros. É o trabalho que escritor faz, mas é uma panaceia, porque o resto não depende do escritor.
4 – Quais são os maiores problemas de Moçambique hoje?

Antes de responder à pergunta, eu vou dizer uma coisa. A imagem que nós temos uns dos outros é feita muito de clichês, de estereótipos. Vocês também têm uma imagem feita fora. A primeira vez que eu vim a São Paulo, há alguns anos, fui protagonista de uma história engraçada. Quando eu estava saindo de Moçambique, disseram-me que São Paulo era perigosíssima, que havia balas perdidas, gente morrendo, e eu comecei a ficar cheio de medo. Uma das minhas filhas me dizia até que eu ia morrer. Na viagem de avião, que dura onze horas, eu vim pensando que era um perigo e que eu seria assaltado. Tinham me dito para tomar cuidado quando chegasse ao aeroporto, porque tinha saído na Globo – lá também temos Globo – que havia falsos táxis que raptavam as pessoas.
E, de fato, eu já estava contaminado com aquela coisa. Quando cheguei, tinha um motorista da minha editora, mas ele não estava usando uniforme e não tinha nenhuma identificação. Eu logo perguntei se ele tinha identificação e ele disse: “Não, eu sou o Pepe”. E foi me conduzindo por um corredor e dizendo que o carro estava lá no fundo. E o carro não era propriamente um táxi. E a ideia de que eu estava sendo raptado começou a soar na minha cabeça. Quando entrei no carro e sentei ao lado do motorista, eu já estava olhando para a frente e pensando “esses são os últimos momentos da minha vida, vou reviver todo o meu passado, como nos filmes”. Até que o motorista pegou algo no porta-luvas. Era uma coisa metálica, para o meu desespero. E ele estendeu essa coisa e disse: “Aceita uma balinha?”. Vocês estão rindo, mas eu não tinha nenhuma vontade de rir, porque balinha lá não quer dizer a mesma coisa que aqui. Quer dizer bala no sentido literal mesmo, projétil de bala. E aí eu só consegui pensar que estava sendo assaltado, que aquele homem ia me matar, mas que era o assassino mais simpático que eu podia encontrar.
Isso é para mostrar como construímos a imagem uns dos outros. A imagem que se tem da África fora da África é sempre associada à fome, à miséria, à guerra. Mas os africanos não vivem todos assim. Eles são felizes, são construtores de vida, têm uma vida social riquíssima, têm culturas diversas, é o lugar no mundo onde há mais diversidade do ponto de vista linguístico e cultural. Então os problemas que temos são os mesmos da maior parte dos países africanos. Têm a ver com a miséria, têm a ver com o fato de que a sua própria história é muito recente. Moçambique teve uma guerra civil de 16 anos, em que morreram muitas pessoas. Quando morre uma pessoa, tanto faz se é militar ou civil, mas o que é mais triste é que as guerras da África são guerras que matam sobretudo os civis. Os soldados morrem pouco, porque muitas vezes se transformam em forças descomandadas, já que não existe um Estado forte e não há territórios definidos. Mas a África toda não é isso, há grandes histórias de sucesso. Moçambique é ao mesmo tempo uma grande história de sucesso, porque a guerra acabou em 1992 e, quando eu pensava que nunca mais ia ver a paz, o governo conseguiu instalar a paz juntamente com a sociedade civil. E hoje Moçambique é um grande parceiro internacional de investimento e de outros governos. Por exemplo, hoje o Brasil está muito presente em Moçambique, com projetos de construção, de estradas, portos, barragens etc. Portanto, acho que Moçambique vive hoje um momento muito feliz. Mas continua sendo um dos países mais pobres do mundo.
5 – Com sua obra, você conseguiu apresentar a realidade de um país, e até de um continente. Como é a sua relação com Moçambique?

Eu não me considero representante de Moçambique, me considero apenas representante de mim mesmo. Eu tenho duas dificuldades: eu sou de um continente em que os brancos são minoria. Os brancos moçambicanos são minoria. Num país de 21 milhões, os brancos são 10 ou 20 mil. Portanto, eu não poderia ser o representante de qualquer coisa, se é que existe isso de representatividade. E a outra dificuldade é que eu tenho nome de mulher. Agora já não acontece tanto, mas antes, quando eu ia visitar um outro país, muitas vezes estavam esperando uma mulher negra. E eu ficava no aeroporto esperando que alguém viesse falar comigo e nada. Já tive desentendimentos terríveis.
Uma vez fui visitar Cuba e tinham organizado um presente para cada membro da delegação de jornalistas. Voltei com uma caixa de presentes. Na época, vivíamos em guerra. E, na guerra em Moçambique, nós vivíamos em uma situação-limite, não tínhamos nada. Nós saíamos de casa em busca de coisas para comer. Era essa a situação que meus filhos tinham de enfrentar todos os dias. Então eu estava fascinado com aquela coisa de ter ganhado um presente. Quando cheguei em Maputo, abri aquela caixa e eram vestidos, brincos, eram coisas para uma mulher, para a senhora Mia Couto. Então eu não me sinto representante nesse sentido, mas sinto que o fato de seu ser conhecido hoje fora de Moçambique me obrigar a ter uma responsabilidade para com o meu próprio país. Então, quando estou fora, eu tento divulgar a cultura de Moçambique, os outros escritores. Trago livros de escritores moçambicanos e entrego às editoras, para saber se é possível que sejam editados etc.
6 – E com Portugal?

Eu sou descendente, sou filho de portugueses e tenho uma relação com Portugal muito curiosa, porque eu não conhecia Portugal até eu ser adulto. Só fui a Portugal quando eu comecei a publicar meus primeiros livros. E era uma coisa muito estranha, porque a concepção africana de lugar é que o lugar é nosso quando os nossos mortos estão enterrados no lugar. E eu não tenho mortos em Moçambique, infelizmente. Então os meus mortos estão enterrados em algum lugar no norte de Portugal. E eu fui ver esse lugar. Eu queria ver justamente porque queria ter essa relação quase religiosa com o lugar.
O que acontece é que os meus pais imigraram para Moçambique quando eram jovens, tinham 20 anos, e viveram toda a sua vida lá, nunca mais tiveram relação com Portugal. E eles contavam histórias de um país que, ao mesmo tempo que me fascinava, era uma coisa muito distante. O que acontecia é que a minha mãe, ao contar histórias sobre a sua família, seus tios e avós, trazia para mim e para meus irmãos uma presença que nos fazia muita falta, porque todos os meus amigos tinha avós, tios e falavam dos primos. Eu não tinha ninguém. A minha família eram os meus pais e os meus três irmãos. Então o que a minha mãe fazia ao contar histórias era inventar a família inteira. Eu precisava ter um sentimento de eternidade que era conferido por essas histórias que a minha mãe contava. Mas eram quase todas mentira, quase todas eram inventadas por ela.
7- Qual é a sua opinião sobre a reforma ortográfica?

Eu não sou a favor. Considero que alguns dos motivos que foram invocados para a reforma ortográfica não são verdadeiros. E acho que é uma discussão com a qual os portugueses, principalmente, ficaram muito nervosos, porque, para Portugal, mexer na língua é uma coisa muito sensível. Algumas pessoas de Portugal acreditam que a língua é a última coisa que eles têm, que é a primeira e última coisa que têm, é um sentimento imperial da sua própria presença no mundo que foi posto em causa. Mas a minha questão não é essa. É que eu sempre li os livros dos brasileiros e nunca tive problema nenhum, nunca tive dificuldade nenhuma. Para vocês, que estão lendo meus livros em português de Moçambique, existe alguma dificuldade particular por causa da grafia? Ou a dificuldade é o resto e essa é a única coisa que não é difícil?
Eu acho inclusive que haver uma grafia que tem alguma distinção, um traço de distinção pode trazer um outro sabor a uma escrita. E os brasileiros conhecem muito pouco de Moçambique, de Angola ou de São Tomé. Às vezes eu ando na rua e tenho uma dificuldade enorme para explicar quem eu sou. Na verdade, isso eu não sei explicar, mas a dificuldade é para explicar de onde eu venho. Quando falo que não sou de Portugal, sempre fica uma coisa difícil. Fazem as perguntas mais estranhas sobre o que pode ser Moçambique, se é um país que fica perto do Paraguai, por exemplo. Então a distância entre nós não é um problema que deriva da ortografia, deriva de outras coisas, de política, de uma falta de interesse, de um distanciamento. Isso não será resolvido mudando o acordo ortográfico.
8 – O que pode mudar a imagem negativa que muitas pessoas têm da África?

Há várias Áfricas e eu estou falando daquela que eu conheço. Essa África que eu conheço sobrevive por um espírito de solidariedade, de abertura e de respeito com os outros. A forma que os africanos têm de se abordar, de saber um dos outros é uma coisa genuinamente autêntica. Quando eu estou cumprimentando alguém, quando estou falando com alguém, eu dou espaço para o outro. Então há uma lição de escutar os outros. Eu nunca falo quando o outro está falando, dou espaço, não tenho medo do silêncio, que é uma coisa que acontece aqui. As pessoas estão conversando, de repente há um silêncio, e isso é um peso, é uma coisa da qual temos que nos libertar, é uma ausência. Na África, essa ausência não existe. Nesse silêncio, há sempre alguém que fala. São os mortos. Por exemplo, a relação com o corpo. É preciso ter tempo para encontrar alguém. Quando eu estou falando com um homem, eu cumprimento com um aperto de mão. Mas o aperto de mão não é igual, tem um ritual. Depois do aperto, a mão fica na mão da outra pessoa. Não tem nada a ver com interpretação gay. A mão fica na mão da pessoa com quem estamos falando, e essa mão não tem peso, é uma mão leve. Porque se fala com o corpo. Temos essa liberdade de poder usar o corpo para dizer coisas que não podem ser ditas pela palavra. São coisas pequenas que nos mudam muito interiormente. É uma capacidade de estar disponível para os outros. E capacidade de ser feliz.
Eu também encontro muito isso no Brasil. Tem a letra de música brasileira que diz “levanta, sacode a poeira, dá volta por cima”. Eu acho que isso é, em grande parte, uma herança africana. Isto é para não ficar lamentando a desgraça. Eu acho que, se os europeus vivessem as dificuldades que vivem os africanos, eles seriam muito amargos. Aliás, já são. A forma como os africanos celebram a alegria de viver e o fato de que qualquer momento é um momento de festa, de celebração, de dança, de canto, acho que é outra coisa que é importante aprender. Há uma tolerância profunda. Vocês vão ouvir mil histórias sobre intolerância, e essas histórias também são verdadeiras. O mundo é feito dessa coisa contraditória, mas a verdade é que há uma tolerância muito grande. Essa tolerância nasce de uma coisa. O que eu vou dizer agora é muito importante: a África só pode ser entendida se vocês perceberem que a África tem uma outra religião. Essa África negra tem uma outra religião. Essa religião não tem nome. Não é o candomblé, não é a umbanda, é outra coisa. É uma religiosidade que não se separou das outras esferas do pensamento. Não é um sistema de pensamento. Na África que eu conheço, existem os deuses das famílias. Você tem os seus deuses, eu tenho os meus deuses. Isso significa que eu não estou muito preocupado em te convencer de que existe uma verdade só, que é uma coisa muito típica das regiões monoteístas, que é uma verdade que tem de ser imposta ao outro e o outro tem de seguir esse princípio. Você pode ter a sua verdade, eu tenho a minha, e está tudo certo. Acho que essa é a razão para os africanos terem essa tolerância.
Mas a verdade é que africanos são muito parecidos com todos os outros. Essa ideia de que a África é muito diferente, muito exótica existe só na cabeça de algumas pessoas. Mas há uma coisa que é preciso ser dita. Em uma sociedade que é muito pobre, às cinco da manhã, às vezes eu saio de casa e vejo as pessoas já acordadas, atravessando quilômetros a pé, andando 30, 40 quilômetros para ir à escola, saindo de casa sem o café da manhã e tomando simplesmente uma xícara de chá com muito açúcar para dar energia, para ir para a escola aprender. Eu tenho um prazer enorme de ir às escolas em Moçambique, porque os meninos estão ali com uma fé quase religiosa. Eles estão ali absorvendo, têm os olhos abertos até o infinito, estão completamente ali. Não se ouve uma mosca passando na sala. É um investimento que eles fazem em uma outra esperança, em uma outra crença. É impressionante. Mas há escolas em Moçambique nas quais eu não vou: a escola americana, por exemplo, que é uma chatice. É uma vida feita de facilidades, em contraste com essa vida de conquistas, em que as pessoas têm de sair de manhã e têm de lutar. Às vezes nem tenho coragem de perguntar a esses meninos o que eles fizeram para chegar à escola naquele dia. Muitas vezes o giz é feito com pau de mandioca seca. Às vezes, não há sala. É uma árvore. E não há cadeiras, as pessoas sentam no chão. No entanto, aqueles meninos estão todos os dias ali na escola, assim como os professores. Isso é uma grande esperança. É um universo de gente que sabe que tem de fazer isso para construir uma vida diferente. É uma grande escola.
9 – Como você e as personagens da sua obra dialogam com o mundo contemporâneo, que é marcado pelo consumismo e pelo hedonismo?

Eu acho que um jogo de construção e desconstrução porque esse mundo que você retrata como sociedade do consumo existe e não existe em Moçambique, porque muitas vezes consumimos muito pouco. Consumimos mais aquilo que é ilusão. Cada vez menos o Estado confere Educação e saúde, e nós temos que conseguir isso por outras vias. Então o que eu procuro fazer nos meus livros é uma coisa que eu posso fazer como escritor. Eu não posso lutar para além desse limite, que é sugerir que há outros caminhos, que é possível sonhar, que não podemos ficar acomodados, resignados. Obviamente eu não posso propor uma tese ou um modelo alternativo nos meus livros, nem saberia fazer isso, mas posso incentivar o gosto, a vontade.
10 – Como você vê os seus personagens no cinema? Como é a visão física deles?

É um estranhamento, porque aquilo que eu criei não tinha voz nem rosto, nem para mim mesmo. Então de repente o personagem tem uma voz. Mas, mesmo que seja a mais bela voz do mundo ou o rosto mais belo do mundo, o fato de ter um rosto e uma voz e não estar aberto e não ter vozes múltiplas é uma perda. Por isso, eu me distanciei. Se participo do filme, é somente para pontualmente dar algum apoio, mas não como alguém que tenha competência para isso, porque eu não tenho. Eu quero que o realizador de cinema faça um produto distante, que é capaz de se soltar, ganhar asas e sair do texto escrito, senão perde como livro e perde como filme.

11- Você gostou de “Um rio chamado tempo, uma casa chama terra”, filme baseado em seu livro?
Mais ou menos. O que tinha de dizer já disse ao realizador, que é meu amigo. Gostei, mas não gostei.